Texto extraido de: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2007/06/08/ult2682u481.jhtm
Para Prêmio Nobel da Paz, é possível "criar um mundo sem pobreza"Em um editorial redigido a convite da "Spiegel Online", o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, explica como capitalismo pode ser radicalmente modificado para ajudar a erradicar a pobreza
De Muhammad Yunus
A estabilidade e a prosperidade do mundo correm risco. Elas correm risco porque 60% da população mundial vive com apenas 6% da renda do planeta. A chanceler alemã Angela Merkel deve ser elogiada pela sua liderança no sentido de garantir que a questão da pobreza permaneça no topo da agenda do G-8. A Alemanha, com as suas presidências do G-8 e da União Européia, está acertadamente conferindo grande importância ao combate à pobreza, à fome e às doenças em todo o mundo - especialmente na África.
O Painel de Progresso da África, que supervisiona as promessas do G-8 em relação à África, e do qual sou membro, afirma que a África não necessita de mais iniciativas. A África precisa é do cumprimento das promessas já feitas. O cumprimento das promessas existentes é crucial para garantir o sucesso da parceria para o desenvolvimento entre o G-8 e a África. Os governos e instituições africanos precisam conduzir o seu próprio desenvolvimento. O apoio do G-8 a esse processo é bem-vindo.
Eu apóio a globalização e acredito que ela possa trazer mais benefícios para os pobres do que qualquer outra alternativa. Mas é necessário que seja o tipo certo de globalização. Para mim, a globalização é como uma auto-estrada de cem pistas cruzando o planeta. Se for uma auto-estrada aberta indiscriminadamente para todos, ela será monopolizada pelos caminhões gigantescos das economias poderosas. As carroças bengalesas serão jogadas para fora da estrada.
Para que se tenha uma globalização na qual todos saiam ganhando, é necessário que haja regras de tráfego, policiais e autoridades de trânsito para essa auto-estrada global. A regra segundo a qual "o mais forte leva tudo" precisa ser substituída por regras que garantam que os mais pobres tenham um lugar e uma parte na movimentação, sem receberem cotoveladas dos poderosos. A globalização não pode se transformar em imperialismo financeiro.
Muitos dos problemas do mundo atual, incluindo a pobreza, persistem devido a uma interpretação muito estreita do capitalismo. A nossa idéia de capitalismo gira em torno do mercado livre. Segundo tal idéia, quanto mais livre o mercado, melhor o resultado do capitalismo na resolução das questões relativas ao 'o que', ao 'como' e ao 'para quem'. Além disso, segundo essa idéia, a busca de ganhos pessoais por parte do indivíduo gera o melhor resultado coletivo possível.
Essa teoria do capitalismo pressupõe que os empresários sejam seres humanos unidimensionais, dedicados a uma única missão nas suas vidas empresariais: maximizar os lucros. Muitos dos problemas mundiais existem devido a essa restrição imposta aos agentes do mercado livre. Essa interpretação do capitalismo isola os empresários de todas as dimensões políticas, emocionais, sociais, espirituais e ambientais das suas vidas.
Nós ficamos tão impressionados com o sucesso do mercado livre que jamais ousamos expressar qualquer dúvida quanto a nossa suposição fundamental. Trabalhamos com intensidade extra para nos transformarmos o mais possível em seres humanos unidimensionais conforme está conceituado na teoria, a fim de possibilitarmos o funcionamento tranqüilo do mecanismo do mercado livre.
Modificando a natureza do capitalismoMas, na realidade, isto constitui-se apenas em metade da história. Ao definirmos 'empresário' de forma mais ampla, podemos modificar radicalmente a natureza do capitalismo, e solucionar vários dos problemas sociais e econômicos não resolvidos dentro da esfera do mercado livre.
Suponhamos que um empresário, em vez de contar com uma única fonte de motivação (tal como a maximização dos lucros), possua agora duas fontes de motivação: maximizar os lucros e beneficiar o povo e o mundo. Cada tipo de motivação gera um tipo diferente de negócio. Chamemos o primeiro tipo de empreendimento para a maximização do lucro, e o segundo tipo de empreendimento social.
O empreendimento social será um novo tipo de negócio introduzido na esfera do mercado com o objetivo de fazer uma diferença para o mundo. Os investidores em um empreendimento social poderão recuperar o dinheiro investido, mas não receberão nenhum dividendo da companhia. Os lucros serão injetados de volta na companhia para expandir o seu alcance e melhorar a qualidade dos seus produtos e serviços. Um empreendimento social será uma companhia sem perdas e sem dividendos.
Tão logo a empresa social seja reconhecida pela lei, várias companhias existentes tomarão a iniciativa de criar um empreendimento social além das suas atividades tradicionais. Ao contrário do setor sem fins lucrativos, no qual é necessário coletar doações para manter as atividades em andamento, um empreendimento social será auto-sustentável e criará lucro para a expansão, já que trata-se de uma empresa sem perdas.
Jovens em todo o mundo, especialmente nos países ricos, acharão o conceito de empreendimento social muito atraente já que ele lhes proporcionará um desafio no sentido de fazer uma diferença ao usarem o talento criativo.
A pobreza é uma ameaça à paz
Quase todos os problemas sociais e econômicos do mundo poderiam ser resolvidos por meio dos empreendimentos sociais. A paz está intrinsecamente vinculada à pobreza, e a pobreza é uma ameaça à paz. E não podemos lidar com o problema da pobreza no âmbito da ortodoxia do capitalismo pregado e praticado nos dias de hoje.
Com o fracasso dos governos de vários países do Terceiro Mundo no que diz respeito à tarefa de administrar com eficiência programas empresariais, de saúde, educacionais e de bem-estar social, todos se apressam em recomendar: "Entregue essa área ao setor privado".
Eu apóio integralmente a recomendação. Mas faço uma pergunta: de que setor privado estamos falando? O setor privado baseado no lucro pessoal tem a sua própria agenda bastante evidente. Tal agenda conflita seriamente com a agenda em favor dos pobres, das mulheres e do meio-ambiente. A teoria econômica não nos forneceu nenhuma alternativa para este setor privado familiar.
O desafio consiste em inovar os modelos empresariais e aplicá-los para a produção dos resultados sociais desejados, de forma eficiente e efetiva sob o ponto de vista dos custos. Podemos criar uma alternativa poderosa: um setor privado guiado pela consciência social, criado por empreendedores sociais. Na reunião de cúpula do G-8, pensemos sobre a criação dos empreendimentos sociais, incluindo empreendimentos sociais multinacionais que trabalhem em benefício dos pobres. Acredito que podemos criar um mundo sem pobreza porque a pobreza não é criada pelos pobres.
Tradução: UOL
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Text extracted from: http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,487073,00.html
GUEST COMMENTARY BY NOBEL PEACE LAUREATE MUHAMMAD YUNUS
'We Can Create a Poverty-Free World'
By Muhammad Yunus
Globalization can be a force for good -- but it needs new rules if the poor are to benefit from it. In a guest op-ed piece for SPIEGEL ONLINE, Nobel Peace Prize winner Muhammad Yunus outlines how social businesses can help eradicate poverty -- and praises German Chancellor Angela Merkel for her efforts to help Africa.
The stability and prosperity of the world are at risk. They are at risk because 60 percent of the world's population lives on only 6 percent of the income. German Chancellor Angela Merkel should be commended for her leadership in ensuring that poverty remains at the top of the G-8 agenda. Germany, in its presidencies of the G-8 and of the European Union, is rightly placing great importance on fighting poverty, hunger, and disease around the world -- especially in Africa.
The Africa Progress Panel, which tracks the G-8's pledges to Africa, and of which I am a member, recommends that Africa does not need more new initiatives. Africa needs the delivery of those commitments already made. Delivery on existing commitments is crucial to ensuring the success of the development partnership between the G-8 and Africa. African governments and institutions must lead their own development. G-8 support for this ownership and process is welcomed.
I support globalization and believe it can bring more benefits to the poor than any alternative. But it must be the right kind of globalization. To me, globalization is like a 100-lane highway criss-crossing the world. If it is a free-for-all highway, its lanes will be taken over by the giant trucks from powerful economies -- Bangladeshi rickshaws will be thrown off the highway.
In order to have a win-win globalization, we must have traffic rules, traffic police, and a traffic authority for this global highway. The rule of "strongest takes it all" must be replaced by rules that ensure that the poorest have a place and piece of the action, without being elbowed out by the strong. Globalization must not become financial imperialism.
Many of the problems in the world today, including poverty, persist because of a too narrow interpretation of capitalism. Our idea of capitalism centers around the free market: It says that the freer the market, the better the result of capitalism in solving the questions of what, how, and for whom. And that the individual search for personal gain brings collective optimal result.
This theory of capitalism assumes that entrepreneurs are one-dimensional human beings, who are dedicated to one mission in their business lives -- maximizing profit. Many of the world's problems exist because of this restriction on the players of free market. This interpretation of capitalism insulates the entrepreneurs from all the political, emotional, social, spiritual, environmental dimensions of their lives.
We have remained so impressed by the success of the free market that we never dared to express any doubt about our basic assumption. We worked extra hard to transform ourselves, as closely as possible, into the one-dimensional human beings as conceptualized in the theory, to allow for the smooth functioning of the free market mechanism.
Changing the Character of Capitalism
But in reality, this is only half the story. By defining "entrepreneur" in a broader way, we can change the character of capitalism radically, and solve many of the unresolved social and economic problems within the scope of the free market.
Let us suppose an entrepreneur, instead of having a single source of motivation (such as maximizing profit), now has two sources of motivation: maximizing profit and doing good for people and the world. Each type of motivation will lead to a separate kind of business. Let us call the first type of business a profit-maximizing business, and the second type a social business.
Social business will be a new kind of business introduced in the market place with the objective of making a difference to the world. Investors in a social business could get back their investment money, but will not take any dividend from the company. Profit would be ploughed back into the company to expand its outreach and improve the quality of its product or service. A social business will be a non-loss, non-dividend company.
Once social business is recognized in law, many existing companies will come forward to create social businesses in addition to their foundation activities. Unlike the non-profit sector where one needs to collect donations to keep activities going, a social business will be self-sustaining and create surplus for expansion since it is a non-loss enterprise.
Young people all around the world, particularly in rich countries, will find the concept of social business very appealing since it will give them a challenge to make a difference by using their creative talent.
Poverty Is a Threat to Peace
Almost all social and economic problems of the world could be addressed through social businesses. Peace is inextricably linked to poverty and poverty is a threat to peace. And we cannot cope with the problem of poverty within the orthodoxy of capitalism preached and practised today.
With the failure of many Third World governments in running businesses, health, education, and welfare programmes efficiently everyone is quick to recommend "hand it over to the private sector." I endorse this recommendation whole-heartedly. But I ask the question: Which private sector are we talking about? The personal-profit based private sector has its own clear agenda. It comes into serious conflict with the pro-poor, pro-women, pro-environment agenda. Economic theory has not provided us with any alternative to this familiar private sector.
The challenge is to innovate business models and apply them to produce desired social results cost-effectively and efficiently. We can create a powerful alternative: a social-consciousness-driven private sector, created by social entrepreneurs.
At the G-8 summit, let us think about creating social businesses, including multinational social businesses that work on behalf of the poor. I believe that we can create a poverty-free world because poverty is not created by poor people.
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